É possível reconhece-la só pelo cheiro, nenhuma tem perfume igual!
Menina, roliça, em todos despertava cobiça.
Isso era antigamente, agora dizem-na selvagem, rude, renegaram-na!
Preteriram-na a favor de outras, as estrangeiras, cheias de maquilhagem e brilhos postiços!
Que pena, pobre pequena, caiu no esquecimento, ninguém se lembra dela.
Bem, isto é cá dentro, porque lá fora ela ainda brilha... sim é verdade, lá fora é apreciada e valorizada!
Que coisa estranha esta!
A minha querida vizinha, a Fátima, deu-me um saco cheio de maças agrais do seu quintal. São maças, de aroma intenso e bastante ácidas, fruto de macieiras silvestres, que outrora eram abundantes junto da margem do rio Coura, na veiga onde eram também abundantes os campos de milho. Começam agora a amadurecer.
No tempo dos meus avós eram colhidas, dispostas em prateleiras entre a palha, duravam meses. Com elas também se fazia a sidra, a aguardente de maça, doce... tudo isto se perdeu e infelizmente também as macieiras já são raras.
Gosto de as comer bem maduras com pão, em tartes, doces ou assadas são incomparáveis!
Deixem-me que vos diga que é muito, muito boa! Acho que foi a melhor que fiz até hoje e já fiz muitas.
O maior mérito é sem duvida das maças.
Ingredientes:
Massa
250 g de farinha (alguma mais para polvilhar a bancada);
50 g de açúcar;
1 limão;
sal q. b.
125 g de manteiga gelada;
1 ovo;
1 golo de leite.
1 ovo e um pouco de leite para pincelar a massa.
Recheio
1 kg de maças agrais (peso já descascadas e sem caroço);
4 colheres de sopa de açúcar mascavado claro;
1/2 colher de chá de gengibre em pó;
1 punhado de uvas passas;
1 punhado de bagas goji;
1 punhado de avelãs;
1 pau de canela;
raspa de 1/2 limão;
1 shot de moscatel;
1 colher de sopa de mel.
Execução:
Massa
Peneirar a farinha para uma tigela. Juntar uma pitada de sal e a raspa do limão.
Cortar a manteiga em cubos pequenos e trabalha-la com as pontas dos dedos, misturando-a com a farinha de forma a obter uma massa areada.
Adicionar o ovo e um golinho de leite, continuar a trabalhar a massa só até que seja possível formar uma bola.
Envolvê-la em película aderente e levar ao frigorífico.
O Recheio
Partir as maças em pedaços, levar ao lume com o açúcar, as passas, as bagas goji, as avelãs, o gengibre, um pau de canela, o shot de vinho moscatel, a raspa de limão, um pouco do sumo e o mel.
Deixar cozinhar um pouco, até que as maças estejam macias, mas não desfeitas.
Untar uma forma para tarte com alguma profundidade.
Retira um terço da massa e reservar (para a tampa).
Estender a massa sobre uma superfície enfarinhada, forrar a tarteira. Não se preocupe se a massa se romper, pressione um pouco para que se volte a unir. Encher com o recheio.
Estender a restante massa.
Bater um ovo pequeno com um golo de leite e pincelar o bordo. Aparar um pouco os bordos, e vira-los para cima, formar um bordo bem selado. Com as aparas da massa decorar a gosto.
Abrir um orifício ao centro da tampa para permitir a saída de vapor.
Pincelar com o ovo batido com um pouco de leite.
Levar ao forno, pré-aquecido a 180º, cerca de 35 minutos, ou até estar dourada.
Um dia deste vou dar um passeio pela margem do rio Coura, do lado da veiga e ver o que é feito das macieiras agrais da "beirada", quem sabe algumas ainda resistem, fiquei com vontade de fazer compota com elas.
Gostei das bagas goji aqui, para além da cor que aportaram, enriqueceram com o seu doce sabor.
Gostava de vos recomendar esta tarte, mas não sei se será fácil arranjarem maças agrais, contudo ela ficará muito boa com outro tipo de maças, saborosas e ácidas, ou como recomenda o Oliver, uma mistura de vários tipos de maças.
Que pena que nós por cá não soubemos valorizar estas maças, outros países fizeram-no, é o caso de Espanha (Galiza, Astúrias, País Basco) da França, da Bélgica, da Alemanha… onde floresceram indústrias de produção de sidra.
Sidra não sei, nem posso fazer, mas esta tarte espero repetir mais algumas vezes... trouxe o cheiro do outono, num dia de verão que tinha mesmo recortes outonais.