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terça-feira, 14 de abril de 2015

Folar de Chaves

Ela ansiava por se apaixonar. Sonhava em casar cedo, arrebatada por um grande amor. Eis que a vida lhe prega uma partida e coloca na sua mão uma difícil decisão, a escolha entre dois pretendentes, em tudo diferentes, um belo e pobre lavrador ou um lindo e rico fidalgo! 
Apelou à santa da sua devoção por ajuda nesta aflição, a data da resposta aproximava-se e Mariana não sabia quem amava, não podia escolher! 
Só num momento de aflição, vendo que ambos se enfrentavam com violência pelo seu amor, dos seus lábios brotou o nome que já, em segredo, habitava no seu coração... Amaro, humilde de condição.
A escolha estava feita, mas continuava inquieta,  não descansava com receio de retaliação do ressentido fidalgo. Aconteceu então algo inesperado, um bolo com ovos e flores apareceu e a reconciliação e amizade prevaleceu!


A lenda do Folar da Páscoa é bem bonita, um bolo que celebra a reconciliação e a amizade. Não precisa de ser Páscoa para o levar à mesa, embora seja nestes dias que ele se torna imprescíndivel.
No rescaldo da Páscoa não quis deixar esta receita sem publicar, gosto imenso de folares, doces e salgados, especialmente estes últimos! Temos uma cultura gastronómica riquíssima, da qual nos devemos orgulhar muito, venho tentando fazer alguns folares e o de Chaves foi o escolhido desta vez.



A receita deste folar veio de Faiões do concelho de Chaves. Vi-o ser confecionado pelas mãos carregadas de sabedoria da D. Noémia! Fiquei completamente encantada ao observar cada gesto, fazendo tudo parecer tão simples. Vocês também podem ir lá  ver, basta fazer um CLICK, chegam lá num instante!


O chefe Hernâni Ermida, no seu blogue "A vida com mais sabor" fez uma adaptação da receita original para o forno elétrico, numa dose que pudéssemos fazer em nossas casas. Decidi experimentar, juntei um pouco de farinha integral e tive necessidade de adicionar mais ovos, pois a massa não ficou com a textura que se vê no vídeo.
Apresento a receita tal como a fiz, adaptada à máquina de fazer pão, que executa a 1.ª fase.



Já fiz este folar duas vezes... nem sempre compreendemos porque razão ao fazer a mesma receita temos resultados tão diferentes. Há muitos fatores que podem interferir. A experiência deste folar provou a enorme importância que tem a temperatura do forno da hora de fazer pão. Na 1.ª vez fiz o pré-aquecimento do forno, deixei que atingisse a temperatura desejada e coloquei o folar a cozer. O resultado foi bom, mas depois de entrar no forno não cresceu mais nada. Na vez seguinte, o forno começou a trabalhar cedo, fez alguns doces, um assado e no final entrou o folar. Nem queria acreditar no que vi... cresceu, abriu, uma maravilha! Um resultado bastante diferente, além de maior, o miolo ficou mais macio. A única coisa que mudou foi a temperatura do forno, os ingredientes e o modo de execução foram exatamente iguais. 
Agora sempre que fizer um assado, daqueles bem longos, vou ter um pãozinho levedado à espera de entrar no forno no final.



Ingredientes:

400 g de farinha de trigo T65;
100 g de farinha de trigo integral;
5 ovos M;
50 ml de água;
75 ml de azeite;
25 g de banha de porco;
15 g de manteiga;
1 saqueta de fermento de padeiro seco;
sal q.b.
presunto q.b
salpicão q.b.


Execução:

Coloque os ovos de molho em água morna.
Leve a aquecer o azeite com a manteiga e a banha, até que as gorduras sólidas derretam.
Bata ligeiramente os ovos e verta na cuba da máquina de fazer pão. 
Adicione o sal.
Junte as gorduras e a água tépidas aos ovos.
Misture as farinhas  e sobreponha na cuba.
Finalmente espalhe o fermento sobre a farinha.
Selecione o programa "Massa", que amassa e leveda.
Verifique que a massa cresceu para cerca do triplo do volume. Se for necessário deixe-a dentro da máquina mais algum tempo (com ela desligada).
Espalhe um pouco de farinha na bancada e retire o ar à massa espalmando-a com as mãos.
Forme um disco espalmando a massa, disponha o presunto cortado em pedaços e o chouriço fatiado.
Puxe as margens da massa para o interior, dobre o disco a meio (como vê nas imagens).
Deixe levedar durante  30 minutos a 1 hora, num local aquecido.
Pre-aqueça o forno a 200º C (deixe aquecer bastante, o ideal é cozer o folar no final de fazer um assado). 
Introduza o folar no forno e verta um copo de água no fundo para criar vapor.
Deixe cozer durante cerca de 25 minutos. 
Arrefeça sobre uma grande.


Já sei que muitos vão dizer que feito do modo tradicional é melhor, porque a máquina acelera a fase de levedar. Eu deixo a massa dentro da máquina no fim do ciclo, já depois de desligada, durante mais algum tempo. Na 2.ª fase de levedar, fica sempre cerca de 1 hora. Desta forma consigo um bom resultado que me satisfaz. 


A qualidade dos fumados é também fundamental. Procurem artigos regionais, se possível caseiros, ainda se encontram em feiras e mercados. Ou então marcas que reproduzem receitas e modos de confeção artesanais, como é o caso da marca "Quinta dos Fumeiros", parceiro deste blogue. 


Porque o sonho comanda a vida eu continuo a sonhar com um forno a lenha, desses onde antigamente se cozia o pão, o sabor é único e não se consegue reproduzir no forno eletrico ou a gás, ainda que fique bom... não é a mesma coisa!


O interior do folar desta foto foi o da 1.ª tentativa, o segundo não houve tempo para fotos, chegou ainda morno à mesa e... desapareceu num piscar de olhos.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Amêndoas Caramelizadas com Canela

Ficava radiante de dourado, luzidia, luminosa, perfumada pelo mel.  Mais tarde vestiram-na de branco, tão alva como a neve, neve que em breve havia de derreter e dar lugar ao seu renascer. Depois começaram a adorna-la de mil cores, as mais alegres e garridas, que traziam à mente os campos radiantes de flores e celebrava assim a chegada da primavera.
Ela era amada e quase venerada, convidada de honra em momentos festivos da maior importância. 
Tudo isto porque encerrava no seu coração a promessa de uma nova vida, um novo recomeço.




Gosto das nossas épocas festivas, gosto dos rituais, do regresso dos pratos e doces tão tradicionais, que ano após ano voltam a ocupar o seu lugar na mesa. Gosto de ver a alegria bailar no olhos dos que me rodeiam, das conversas à volta da mesa, das gargalhadas, das memórias partilhadas.
Gosto ainda de ter sempre uma ou outra novidade... 


- Este ano as amêndoas foram feitas por mim - anunciei. Todos olhavam e pareciam não acreditar, por isso repeti e repeti até me assegurar que tinham percebido e as iam provar.
Nem acredito que são tão fáceis e rápidas de preparar! A receita vi-a na página do facebook A Minha Cozinha da Clara de Sousa e pensei de imediato em testa-la.  Substitui o açucar refinado pelo amarelo e juntei um pouco de flor de sal, o resultado superou as minhas expectativas!



Amêndoas Caramelizadas com Canela


Ingredientes:

200g de amêndoas com pele;

1/2 clara de ovo;
1 colher de chá de água;
60g de açúcar amarelo;
40g açúcar mascavado escuro; 
1 colhere de chá de canela em pó (Suldouro);
uma pitada de flor de sal (Marnoto).



Execução:

Bata a clara de ovo com a água até obter uma espuma, sem liquido, mas sem chegar a ficar em castelo (não deve ser demasiado batida).
Noutro recipiente misture bem os açúcares, a canela e um pouco de flor de sal.
Junte as amêndoas à clara e envolva-as muito bem.
Adicione a mistura de açúcar e canela e volte a envolver bem no preparado de amêndoas.
Forre um tabuleiro com papel vegetal e espalhe-as bem.
Leve a forno pré-aquecido a 150º C, durante 15 minutos. Usando um garfo volte as amêndoas e leve mais 15 minutos ao forno.
Deixe arrefecer, separe as que ficaram colodas.
Delicie-se!




Espero que a vossa Páscoa tenha sido muito feliz e docinha.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Bola de Fumados

Pode faltar o sol, pode faltar o luar,
Podem até faltar as estrelas, mas tu não podes faltar!
Pode faltar o vento, pode faltar a chuva, pode até faltar o ar,
mas tu nunca podes faltar!





Desta vez não podia faltar!
"Dia um na Cozinha"  chamou o pão para a mesa, e mesmo que tenha ouvido o chamamento à última da hora..., até ao fim do dia ainda tenho tempo!

Corri para a cozinha e deitei mãos à massa e preparei uma broa, mas ainda ela estava no forno apareceram visitas inesperadas... bem tentei fotografar, mas correu mal! 
Correram mal as fotos que a broa essa correu lindamente... já acabou, foi comida quentinha e muito bem acompanhada!
Salvou-me ter feito esta bola para a Páscoa e estar na fila de espera para ser publicada.


Bola de Fumados

Ingredientes:


400 g de farinha de trigo T 65 (Espiga);
240 g de farinha de trigo integral;
100 ml de azeite;
50 ml de banha;
150 ml de leite;
3 ovos + 4 gemas;
1 colher de café de sal marinho;
4 g de fermento de padeiro seco;
100 g de barriga fumada;
150 g de chouriço de carne;
150 g presunto.

Produtos de parceiros usados nesta receita: chouriço de carne e barriga fumada "Quinta dos Fumeiros"; sal marinho Marnoto-Necton.



Execução para Máquina de fazer Pão:

Colocar na cuba da máquina os ingredientes líquidos (azeite, leite, banha derretida, ovos e gemas).
Seguidamente colocar os ingredientes secos (farinhas, sal e fermento).
Selecionar o programa "Massa" e deixar correr todo o ciclo de amassar e levedar (na minha demora 1.50 horas). Quando terminar voltar a repetir todo o programa.
Cortar os fumados em pedaços e fatiar o chouriço em rodelas.
Retirar a massa da cuba e verter sobre uma superfície levemente enfarinhada.
Juntar as carnes fumadas à massas, amassar um pouco para que fiquem bem distribuídas.




Untar uma forma com azeite e polvilhar com farinha.
Colocar a massa na forma e deixar levedar até de duplique de volume.
Levar ao forno, pré-aquecido a 220º C, durante 40 minutos.



Já fiz vários folares salgados e bolas, mas esta é simplesmente fantástica!



Não me importo que me chamem "batoteira", por recorrer à minha "Maria MDF", sem ela não poderia fazer estas coisas, e se eu não contasse ninguém suspeitaria!
Os dois ciclos de amassar e levedar, mais a fase final de levedação (deixei ficar de a noite toda), conferem a esta bola uma massa de sabor e textura divinos! Claro que a qualidade dos fumados é outro factor primordial e já agora os ovos, que eram caseiros, tal como a banha.



Deixem-se tentar, sirvam-se de uma generosa fatia e quando terminarem... vão querer mais!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Folar de Olhão

Eu gostava de lá ir, passear pelas suas ruas, degustar o bom peixe e marisco...
Fecho os olhos e deixo-me viajar, sinto o cheiro do mar, o sol quente a brilhar, vejo a bela ilha e a ria a desfilar, tão formosa!
Encho os olhos dela, ficam até marejados, são olhos de água então!
Tão lindo que é Olhão!


Se costumam passar por cá já sabem que gosto de pegar numa receita e recria-la, torna-la um pouco minha. Porém há algumas que se lhes mexer vai certamente ser para estragar, pois já são excelentes. Outras há que por desconhecer e nunca ter comido prefiro não alterar. É o caso desta, nunca provei o folar de Olhão, mas lendo a receita e vendo a imagem do resultado, sabia que tinha que ser mesmo muito bom.


Adaptei esta receita tradicional à máquina de fazer pão, amassar à mão infelizmente para mim, está fora de questão, então socorro-me da minha "Maria MDF".
Segui a receita publicada no ano passado pela Clara de Sousa, na sua página do facebook, "A Minha Cozinha", pois não a encontrei no meu fiel guia  de "Cozinha Tradicional Portuguesa". Estranhamente não está lá, mas com a imensa riqueza que a culinária portuguesa tem não poderia lá estar tudo!



Ingredientes:

Massa

120 g de manteiga amolecida;
50 ml de leite;
200 ml de sumo de laranja;
50 ml de aguardente;
60 g de banha derretida;
1 pitada de sal;
1 saqueta de fermento seco de padeiro;
500 g de farinha tipo 65;
erva doce q.b.

Recheio

200 g de açúcar  amarelo;
100 g de manteiga;
canela q.b.
raspa de 1 limão.


Execução:

Colocar na cuba da máquina todos os ingredientes líquidos, ou seja: a manteiga, o leite, a banha, a água ardente e o sumo de laranja.
Seguidamente introduzir os ingredientes secos por esta ordem: o sal, a erva doce, a farinha e por último o fermento de padeiro.
Selecionar o programa "Massa" e deixar concluir (na minha máquina tem a duração de 1.50 h.). 


Findo o segundo ciclo, retirar a massa da cuba e colocar sobre uma superfície levemente enfarinhada.
Untar a forma manteiga e salpicar  generosamente com açúcar amarelo. 



Dividir a massa em 8 partes iguais.
Com o rolo da massa estender uma porção de modo a ficar com um disco, cujo diâmetro seja semelhante ao do fundo da forma (panela). Colocar o 1.º disco de massa dentro da forma.


Pincelar com a manteiga.



Salpicar com o açúcar.



Polvilhar com a canela.



Espalhar um pouco de raspa de limão.



Repetir o processo até esgotar toda a massa.



Deixar levedar novamente, deve crescer duplicando de tamanho.  Pode levar de 1 a 2 horas, conforme a temperatura ambiente (costumo amornar um pouco o forno e coloca-la lá dentro ou então embrulhar numa manta). 


Pré-aquecer o forno a 200º C e cozer o folar entre 45  a 60 minutos.
Retirar, desenformar de imediato, enquanto o caramelo está líquido.



Uma leitora natural de Olhão advertiu-me que o "Folar de Olhão" original é cozido numa forma metálica, ou panela de alumínio e não em barro.
Segunda ela o resultado final é diferente. Precios de comprar uma panela com este formato e assim, na próxima vez, já posso  seguir o seu conselho.
O meu folar afundou um pouco ao centro, julgo que devia ter cozido um pouco mais e aumentar a temperatura do forno, são variáveis que mudam consoante o forno que temos. 


Gostei muito de trazer um pedacinho de Olhão para a nossa mesa de Páscoa.